moimeichego
30.8.11
Lua e Sol
E de teu sol, incenssáveis eram as flamas ardis cujo lânguido lambear acalentava meu celeste corpo, até que do pálido desalento de meu cosmo que degelou-se, liquefeito em lágrimas infindas, formou-se tão turvo rio.
Arguir-me-ias, então, amado, de todas as pessoas que nele se afogaram?
Pois de tudo, lembre-se antes, amado, que de dois astros que se colidem, o que há sempre de se restar é o vazio de um buraco negro, onde tão formosa luz que doutrora irradiava, doravante há de jazir.
(Dissipa-te, então, sepulcral e torvo mar de mim mesmo. Pois cabe à tua ínfima chuva desluzir agora a combustão de um sol inteiro.)
28.7.10
Nevertheless

Não obstante o gruir de nova tormenta, a brisa soprou-lhe terna e árida.
Não obstante o furor da procela em seu âmago, a primeira lágrima desceu-lhe silente e derradeira.
E, sobre tudo, não obstante a alma transbordar de estesia, a vida estagnou em ferrugem e tons de sépia.
(Eu gostaria que chovesse.)
18.12.09
Ego au Feu; Post-Scriptum

Pelas chagas pútridas escorriam o derradeiro testemunho de que o aconchego de teu ninho convertera-se em heras venenosas, ressequidas e nocivas a emaranharem-se em sua própria mesquinhez.
Não obstante, deitei-me no áspero leito de teu ser - outrota cama de frondosas copas. Afundei-me em tua natureza mirrada e desbotada.
Então, em vicioso ode à asfixia em que a putrefação acarretava, entoei o mais belo cântico que a infância corrompida me permitira lembrar.
Só não havia percebido que era um canto fúnebre.
(E, hoje, para os enfermos que se atrevem a repousar aqui, tudo que restou são cinzas.)
2.9.09
Ego au feu

Lembra-te, pequeno, de onde tua luz há de resguardar resquícios sagrados do ruir precoce da cândida infância.
Lembra-te, pequeno, que já terias sucumbido em dor e rancor, se não soubesses como zelar por tal candura. E sorrir para o que há de vir no alvorecer candente, onde anjos de carne flamejam à antemanhã, queimando as trevas em pura luz.
Lembra-te, pequeno, lembra-te! E branda o furor de tua redenção! E, ao ardor de nova aurora, em ti mesmo reluzirá nova ascenção.
2.8.09
Do Algoz de Si Mesmo

Submerja-te, pequeno lorde, em teu sepulcral e torvo mar de si mesmo.
Afunda-te à tua parte mais recôndita, onde a inane sentina de teu eu seja o único testemunho de teu padecer, dissolvendo choros lúgubres em afável canto de jubarte, alheio à tormenta superficial.
Uma vez lá, dê a ti de beber a umbra de teu próprio âmago, lânguido a espalhar o veneno torpe pelas próprias veias...
E feche os olhos.
(Bons sonhos, meu doce lorde.)
2.6.09
Alguém superior...

Novamente tua sensatez patriarcal liquefaria, sem esforço, minhas frívolas lamúrias em lágrima intrusa e sorrateira, silente como a histeria muda da falta de toque de um pacto debilmente velado pelo próprio silêncio.
E sem esforço, tua benevolência onipresente acolheria em braços minha egolatria umbrófila e vã novamente.
Novamente, nada mais que novamente.
(E, ao ritmo apressado do bater de coração mais brando que já presenciei, digo obrigado enquanto deveria pedir perdão.)
21.5.09
Outrora.

"E... se por um minuto... um minuto sequer, alguém conseguir se liquefazer de sua própria mesquinhez, em prol do torpor daquela beatitude pura e incondicional, que ultrapassa qualquer julgamento e entendimento... sim, ele terá encontrado o 'momento mais marcante e epifânico da sua vida'."
(A verdade é que a languidez doutro corpo estirado tornou-se fria; e o álcool do teu momento de beatitude já não lhe é palatável.
Da epifania, efêmera, talvez seja inevitável o ruir como se é aquele dos bons sonhos.)
