moimeichego
18.12.09
Ego au Feu; Post-Scriptum

Pelas chagas pútridas escorriam o derradeiro testemunho de que o aconchego de teu ninho convertera-se em heras venenosas, ressequidas e nocivas a emaranharem-se em sua própria mesquinhez.
Não obstante, deitei-me no áspero leito de teu ser - outrota cama de frondosas copas. Afundei-me em tua natureza mirrada e desbotada.
Então, em vicioso ode à asfixia em que a putrefação acarretava, entoei o mais belo cântico que a infância corrompida me permitira lembrar.
Só não havia percebido que era um canto fúnebre.
(E, hoje, para os enfermos que se atrevem a repousar aqui, tudo que restou são cinzas.)
2.9.09
Ego au feu

Lembra-te, pequeno, de onde tua luz há de resguardar resquícios sagrados do ruir precoce da cândida infância.
Lembra-te, pequeno, que já terias sucumbido em dor e rancor, se não soubesses como zelar por tal candura. E sorrir para o que há de vir no alvorecer candente, onde anjos de carne flamejam à antemanhã, queimando as trevas em pura luz.
Lembra-te, pequeno, lembra-te! E branda o furor de tua redenção! E, ao ardor de nova aurora, em ti mesmo reluzirá nova ascenção.
2.8.09
Do Algoz de Si Mesmo

Submerja-te, pequeno lorde, em teu sepulcral e torvo mar de si mesmo.
Afunda-te à tua parte mais recôndita, onde a inane sentina de teu eu seja o único testemunho de teu padecer, dissolvendo choros lúgubres em afável canto de jubarte, alheio à tormenta superficial.
Uma vez lá, dê a ti de beber a umbra de teu próprio âmago, lânguido a espalhar o veneno torpe pelas próprias veias...
E feche os olhos.
(Bons sonhos, meu doce lorde.)
2.6.09
Alguém superior...

Novamente tua sensatez patriarcal liquefaria, sem esforço, minhas frívolas lamúrias em lágrima intrusa e sorrateira, silente como a histeria muda da falta de toque de um pacto debilmente velado pelo próprio silêncio.
E sem esforço, tua benevolência onipresente acolheria em braços minha egolatria umbrófila e vã novamente.
Novamente, nada mais que novamente.
(E, ao ritmo apressado do bater de coração mais brando que já presenciei, digo obrigado enquanto deveria pedir perdão.)
21.5.09
Outrora.

"E... se por um minuto... um minuto sequer, alguém conseguir se liquefazer de sua própria mesquinhez, em prol do torpor daquela beatitude pura e incondicional, que ultrapassa qualquer julgamento e entendimento... sim, ele terá encontrado o 'momento mais marcante e epifânico da sua vida'."
(A verdade é que a languidez doutro corpo estirado tornou-se fria; e o álcool do teu momento de beatitude já não lhe é palatável.
Da epifania, efêmera, talvez seja inevitável o ruir como se é aquele dos bons sonhos.)
15.5.09
3

- Eu te amo.
(Assim, na ânsia de espalhar seu gélido amargor por uma boca que há muito rejeitara sabores doces, o ressentir despontou bélico na garganta: )
- Foda-se.
(depois de então, dizer adeus foi fácil demais.)
6.5.09
(Des)conforto

Há uma tênue luz nos teus olhos que reflete tudo aquilo que poderíamos ter sido.
E às vezes você me ilumina.
Há uma nota em teu timbre que ressoa todas as juras de amor reprimidas.
E às vezes teu som me acalenta.
E no sorrir, há uma pequena distorção no teu riso que clama pelo beijo cessado.
E às vezes eu rio junto.
(Odeio sentir-me tão lisonjeado)
